Matriculas Abertas

A Valsa dos Continentes

Durante as primeiras fases de formação do nosso planeta não havia oceanos, nem continentes devido as altas temperaturas existentes (Se sua memória é  boa vai lembrar que comentamos isso no nosso primeiro texto). Com o resfriamento da superfície do nosso planeta a água que se encontrava em forma de vapor pode retornar ao estado liquido formando nossos oceanos e as massas continentais se resfriaram tomando a forma sólida dos continentes. No entanto nosso planeta nem sempre teve essa mesma formação continental que vemos hoje em fotos e nos mapas. Na realidade essa imagem que temos tão fixa nas nossas cabeças da disposição do nosso planeta não passa de uma fotografia de sua juventude. Se nosso planeta tivesse um álbum de fotos desde seu nascimento até hoje teríamos uma noção que nosso querido planeta já mudou bastante.

Agora vocês já se perguntaram por quê? Já perceberam que o nosso continente parece que se encaixa perfeitamente na África? Será que eles já estiveram juntos? Será que essas massas gigantes de terra mudam de forma e posição ao longo do tempo? Como isso é possível?  Bom, essas são perguntas que nós, seres humanos, fizemos por muito tempo e foi causa de boas discussões entre geólogos durante o horário de almoço nas universidades durante todo século XX.

Foi Frank Bursley Taylor, um geólogo amador Norte americano que propôs pela primeira vez em 1908 que os continentes de alguma maneira estavam em movimento, no entanto ele nunca viveu para saber que estava certo. Sua teoria foi desacreditada e ignorada pela comunidade científica na época e só depois de algumas décadas quando Alfred Wegener, um meteorologista alemão.

O mundo até ontem

Aviso para a Tripulação:

Quando vocês estiverem recebendo esse texto, já estaremos há mais de 3.000 km,  prestes a sair do extremo norte da Argentina e começar nossa rota pelo Atacama, o deserto  mais seco do planeta.  Alguns de vocês podem estar se perguntando por que sair do conforto do lar, entrar numa Kombi e sair por ai sem segurança nenhuma, sem saber o que vai acontecer, onde dormir, o que comer ou mesmo se nada de mal vai acontecer. E se a gente falar que tudo isso tem a ver com a história genética da nossa espécie, parece loucura, mas não é. Essa vontade de viajar e rumar para o desconhecido está enraizada no nosso material genético, desde a época que éramos simples caçadores coletores e lutávamos com tigres dente de sabre para conseguir nosso almoço.

Gostou? Quer saber mais? Então se acomoda na carteira, limpa essa remela do olho e vem com a gente.

“Sou atormentado por um desejo constante pelo que é remoto. Gosto de Navegar em mares proibidos”  (Herman Malville, autor de Moby Dick)

O mundo até ontem

No último texto vimos como nosso planeta e a vida se formou no decorrer desses 4,5 bilhões de anos. Hoje iremos focar na história da nossa espécie, de como saímos do status de criaturas comedoras de raízes e carniça e fomos capazes de chegar a Lua, dividir o átomo e de mapear o código genético.

Três importantes marcos definiram o curso da história dos seres humanos; A Revolução cognitiva (ocorreu cerca de 70 mil anos atrás), Revolução Agrícola (Ocorreu cerca de 12 mil anos atrás) e a Revolução científica (ocorreu cerca de 500 anos atrás).

Cerca de 2,5 milhões de anos atrás já existiam seres humanos no nosso planeta. Nossos ancestrais mais antigos já habitavam as lindas paisagens da África Oriental. Eles assim como nós brincavam, caçavam, amavam, formavam laços de amizade, lutavam por poder, guerreavam e matavam. No entanto chimpanzés, leões ou elefantes compartilham dos mesmos comportamentos. Os humanos daquela época não tinham nada de especial, eram simplesmente mais uma espécie lutando para sobreviver.

Bom antes de continuar temos que contar um segredo para vocês, um segredo que nossa espécie gosta de deixar bem guardado, no fundo do baú, junto com aquelas fotos de final do ano escolar ou daquela festa junina que sua mãe ainda escolhia sua fantasia e pintava seu rosto.

Os biólogos classificam todos os organismos do planeta em diversas categorias como Reino, Filo, Classe, Ordem, Família, Gênero e Espécie.  Sabendo disso vamos focar nas últimas três categorias que citei acima. Para classificarmos organismos dentro da mesma espécie partimos do preceito que eles conseguem se reproduzir entre si e gerar descendentes férteis (ótimo agora vocês já sabem o conceito básico de espécie), todas as espécies que evoluíram de um mesmo ancestral são agrupadas em um Gênero, por exemplo, os chimpanzés possuem o nome científico Pan troglodytes (Onde “Pan”  indica o gênero e “troglodytes”  a espécie) e seus primos bonobos (outra espécie de primatas) são conhecidos como Pan paniscus. Por sua vez os gêneros são agrupados em famílias, hominidae, no caso desses dois primatas e pasmem essa é a mesma família que a nossa espécie está agrupada, ou seja, vocês gostando ou não os chimpanzés são nossos parentes distantes. Nós seres humanos gostamos de esconder esse fato, assim como as pessoas escondem graus de parentesco com algum político corrupto, ou com algum primo ou prima distantes que acabaram se envolvendo em algum problema polêmico, mas ao contrário dessas pessoas, não temos que ter nenhuma vergonha de nossos antepassados.

Agora que revelamos esse pequeno segredo, podemos dar sequência na saga de nossa espécie pelo planeta.

Por volta de dois milhões de anos atrás nossos primos distantes, os Australopithecus, deixaram a África oriental e rumaram para as regiões da África do Norte, Europa e Ásia. Como cada uma dessas regiões possuem características totalmente distintas em relação ao relevo, vegetação e clima as populações humanas que ali se fixaram acabaram tomando rumos diferentes no processo evolutivo. Dessa primeira grande migração pelo planeta surgiram os Homo neanderthalensis, Homo erectus, Homo soloensis, Homo florensiensis, Homo denisova entre outras espécies de seres humanos. Isso mesmo se você pensava que nós éramos a única bolacha do pacote está muito enganado, já tivemos várias espécies irmãs coexistindo no nosso planeta. Eles possuíam características diversas, algumas espécies eram conhecidas por serem grandes caçadores, guerreiros, coletores de plantas e raízes enquanto outros não passavam de um metro de altura (Não, não estamos falando dos hobbits). E a nossa espécie, Homo sapiens, onde estávamos nessa época? Por que essas outras espécies não habitam mais o planeta nos dias de hoje? Calma que já vamos responder tudo isso.

Nossa espécie vivia tranquilamente na África, mas cerca de 70 mil anos atrás começamos nosso processo de migração pelo planeta. Uma questão um pouco obscura vai ser abordada agora, então se preparem. Quando chegamos à Europa e Ásia ela já estava ocupada por outras espécies de humanos lembram-se? Bom, existem duas teorias principais para o que houve com eles; A primeira acredita que nós acabamos nos miscigenando com eles, ou seja, ficamos amigos, criamos laços, nos reproduzimos e foi tudo bacana sem grandes conflitos. Já a outra acredita que houve muitos conflitos e a nossa espécie acabou eliminando todas as outras (Uma teoria plausível quando vemos torcedores de futebol brigando como loucos por causa de uma partida).

Agora vem uma questão importante. O que nos fez tão especial e superiores que de alguma maneira conseguimos subjulgar todas nossas espécies irmãs? Muito provavelmente foi a nossa capacidade de linguagem e de comunicação, no entanto como isso ocorreu nenhum cientista sabe explicar.

O surgimento de uma espécie com a capacidade de pensar e transmitir informações sobre o mundo a sua volta, sobre suas relações sociais e sobre coisas abstratas (espíritos tribais,nações, direitos humanos) configura a Revolução Cognitiva, provavelmente causada por mutações no nosso DNA.

Mas por que a nossa espécie foi escolhida? Provavelmente foi o acaso, eu sei um pouco decepcionante a resposta, seria mais interessante se essas mutações tivessem sido causadas por algum monolito misterioso como no livro “2001, Uma Odisseia no espaço” de Arthur C. Clarke, mas não, foi meramente o acaso que nos fez capaz de criar a roda, a escrita, de construir as pirâmides, as bibliotecas de Alexandria, de desenvolver a retórica, matemática, medicina, filosofia, física, de criar religiões, o teatro, poesia, a sétima arte, a internet e de nos levar até o espaço.

Muito poético tudo isso, mas entre a revolução cognitiva que nossos ancestrais passaram até os dias de hoje houve muita coisa que vale a pena falarmos. Se vocês olharem a linha do tempo de nossa espécie e de nossos ancestrais vão notar que durante 99,9% da nossa estadia no planeta fomos caçadores coletores, vagávamos pela savanas, estepes, montanhas e florestas em busca de alimento. Caçávamos indiscriminadamente e, além disso, éramos esbanjadores, nossos ancestrais só queriam saber de picanha de mamute o resto era jogado fora (Estudos mostram que nossos ancestrais foram responsáveis por cerca de 73,3% dos grandes mamíferos na América do Norte, 79,6% na América do Sul e 86,4% na Austrália! E tudo isso num período  muito curto de tempo).

Por que e quando então deixamos a vida de caçadores coletores e viramos sedentários? Na realidade essa não foi uma decisão pontual tomada pela nossa espécie. Sítios arqueológicos espalhados no mundo todo mostram que essa transição ocorreu de maneira gradual e de forma independente nos quatro cantos do planeta há cerca de  12 mil anos atrás. Agora o porquê dessa transição é uma pergunta um pouco mais complexa de se responder.

De certa maneira tivemos muita sorte e muito azar ao mesmo tempo, um pouco confuso, mas já vamos explicar; Tivemos sorte porque a última glaciação terminou cerca de 18 mil anos atrás, com um clima mais ameno a natureza prosperou criando um cenário perfeito para o surgimento da agricultura.

Quanto a questão de termos tido azar é um pouco mais longa, então prestem atenção;  Como falamos anteriormente nossa espécie viveu muito mais tempo como caçadores coletores do que como agricultores, ou seja, todo nosso organismo se adaptou a uma vida nômade, com um alto gasto calórico e um alto consumo também, além de que nossos antepassados caçadores possuíam uma dieta muito diversa. Estávamos acostumados a correr por grandes pradarias, caçar preguiças com mais de 8 metros de altura, transpor cordilheiras, cruzar desertos e geleiras, desbravar florestas e quando encontrávamos algum lugar com abundância de comida ficávamos nele até ter que encontrar outro. Com um alto conhecimento da natureza nós já tínhamos uma certa noção de agricultura  e nesses períodos que não estávamos em movimento selecionávamos as melhores sementes da área e as plantávamos e foi assim que começamos a selecionar artificialmente todas verduras, frutas e grãos que comemos até hoje.

Com o tempo as tribos foram aumentando e por motivos sociais algumas delas acharam melhor fixarem-se e plantar, assim a comida sempre estaria garantida, velhos e crianças seriam mais bem aceitos, (já que muitas vezes eles eram deixados para trás durante longas migrações), seus filhos cresceriam melhor, com o aumento da população haveria mais mão de obra nas lavouras e todos seriam muito felizes. Uau que sonho de vida não acham? Na verdade não, o que aconteceu no começo da revolução agrícola foi justamente o contrário.

Quando começamos a plantar para sobreviver de grãos, nós cometemos um grande erro em restringir nossa alimentação para um único tipo de alimento. Com essa decisão crianças não desenvolviam seu sistema imunológico gerando focos de doenças contagiosas. A dependência da lavoura para alimentação da tribo também gerava fome nas épocas de seca ou de muita chuva quando as lavouras eram perdidas, a violência permaneceu igual e essas tribos eram muitas vezes saqueadas por outro grupo de humanos.

Conseguiram perceber? Não foi fácil pra nossa espécie prosperar como agricultores, mas por que então não permanecemos como caçadores coletores? Por dois principais motivos; nossa organização social e por comodismo. Pode parecer besteira essa última resposta, mas não é, nossa espécie tende a se acostumar com comodidades e depois não consegue abrir mão delas. Duvidam? Perguntem para seus pais como eles faziam pra viver sem internet, smartphones, tablets, aplicativos diversos, ou perguntem para seus avós como era viver sem carro, geladeira, fogão elétrico, TVs e etc. E vocês conseguiriam viver sem tudo isso? Bom a resposta cabe a cada um que estiver lendo. Vamos deixar aqui um trecho do livro “Pálido Ponto Azul” de Carl Sagan para que todos pensem um pouco mais no assunto:

“Fomos errantes desde o início. Conhecíamos a posição de todas as árvores  num raio de duzentos quilômetros. Quando os frutos ou as castanhas amadureciam, lá estávamos nós. Seguíamos os rebanhos em suas migrações anuais. Deleitávamos-nos com a carne fresca. Por ações furtivas, estratagemas, emboscadas e ataques de força bruta, alguns de nós realizávamos em conjunto o que muito de nós, sozinhos, não podíamos conseguir. Dependíamos uns dos outros. Viver por conta própria era uma ideia tão absurda quanto fixar residência. Trabalhando juntos, protegíamos os filhos dos leões e das hienas. Ensinávamos a eles as habilidades de que iriam precisar. E as ferramentas.

Naquela época, como agora, a tecnologia era a chave de nossa sobrevivência. Quando a seca era prolongada, ou quando o frio se demorava no ar do verão, nosso grupo partia – às vezes para terras desconhecidas. Procurávamos um lugar melhor. E, quando não nos dávamos bem com os outros em nosso pequeno bando nômade, partíamos à procura de um grupo mais amigável em algum outro lugar. Sempre podíamos começar de novo. Durante 99,99% do tempo, desde o aparecimento de nossa espécie, fomos caçadores e saqueadores, errantes nas savanas e nas estepes. Não havia guardas de fronteiras então, nem funcionários da alfândega. A fronteira estava por toda parte. Éramos limitados apenas pela Terra, pelo oceano e pelo céu – e mais alguns eventuais vizinhos rabugentos. No entanto, quando o clima era adequado, quando os alimentos eram abundantes, tínhamos vontade de ficar no mesmo lugar. Sem aventuras. Engordando. Sem cuidados. Nos últimos 10 mil anos – um instante em nossa longa história – abandonamos a vida nômade. Domesticamos as plantas e os animais. Por que correr atrás do alimento quando se pode fazer com que ele venha até nós? Apesar de todas as suas vantagens materiais, a vida sedentária nos deixou irritáveis, insatisfeitos. Mesmo depois de quatrocentas gerações em vilas e cidades, não esquecemos. A estrada aberta ainda nos chama suavemente, quase uma canção esquecida da infância. Atribuirmos um certo romance aos lugares remotos. A minha suspeita é de que o apelo tem sido meticulosamente elaborado pela seleção natural, como um elemento essencial de nossa sobrevivência. Longos verões, invernos amenos, ricas colheitas, caça abundante – nada disso dura pra sempre. Esta além dos nossos poderes predizer o futuro. As catástrofes têm um modo de nos atacar sorrateiramente, nos pegando desprevenidos. Talvez você deva sua vida, a de seu bando ou, até mesmo, a de sua espécie a uns poucos inquietos – levados, por um desejo que mal podem expressar ou compreender, a terras desconhecidas e a novos mundos”.

 

 

Gostaram? Esperamos que sim abaixo vamos deixar as referências que usamos nos textos. Obrigado galerinha é muito bom poder dividir toda essa viagem com vocês, um grande abraço e até a próxima parada.

 

 

 

 

Referências:

– Livros:

O mundo até ontem – Jared Diamond

Armas germes e aço – Jared Diamond

Pálido ponto azul – Carl Sagan

Uma breve história da humanidade, Sapiens – Yuval Noah Harari

De primatas à astronautas – Leonard Mlodinow